4 PERGUNTAS – FERNANDO MEIRELLES

29-07-2020

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Desde o dia 07 de abril, quando assustados entrávamos em quarentena para frear o avanço da COVID-19, lançamos uma série especial de entrevistas, que chamamos “Inspirar para não pirar”.

Com objetivo de trazer visões diferentes das nossas, inspirar pessoas e empresas a fazer mais que o básico e, principalmente, transformar pensamentos e sociedades pouco diversos, convidamos profissionais incríveis para compartilhar conosco.

Foram 13 entrevistas desde então e ficamos pensando em quem poderia finalizar esse ciclo com um olhar ainda mais apurado sobre o momento e como podemos ser melhores daqui pra frente.

E nada melhor do que um diretor como Fernando Meirelles para nos guiar nesse universo, que mistura ficção e realidade, amadores e profissionais, famosos e anônimos, protagonistas e coadjuvantes, em busca do aperfeiçoamento constante.

Fernando Meirelles é diretor de cena, produtor e co-fundador da O2 Filmes. Dirigiu o filme “Cidade de Deus”, lançado em 2002 e indicado a quatro Oscars®, em 2004, incluindo o de Melhor Diretor. Também foi nomeado para o Globo de Ouro, por Melhor Direção, por seu filme “O Jardineiro Fiel”, que conquistou o prêmio de melhor atriz coadjuvante para Rachel Weisz, também ganhadora do Oscar® na mesma categoria, em 2006.

Além desses, Meirelles dirigiu a adaptação de “Ensaio sobre a cegueira”, de José Saramago, em 2008, e o filme “360”, em 2011, que abriu o Festival de Cinema de Londres.

Recentemente, assumiu o papel de ser um dos diretores criativos da cerimônia de abertura das Olimpíadas Rio 2016. Seu mais recente projeto é o longa-metragem “Dois Papas”, para a Netflix, indicado a três categorias no Oscars® e a quatro no Globo de Ouro, ambos em 2020. Fernando nasceu e mora em São Paulo.

1) Em 2016 você assinou, junto com Andrucha Waddington e Daniela Thomas, a direção da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, numa época que o Brasil tentava sair de mais uma crise econômica. Quatro anos depois, qual o seu sentimento em relação ao legado que a Rio 2016 deixou para o país?

Fernando Meirelles: Não tenho os dados, mas de concreto tiveram as reformas na região portuária do Rio, a implantação do VLT, do BRT, expansão do Metrô. Tudo isso deveria ser maior do que aconteceu, mas foi feito e está em uso. Olhar para a lista de promessas e expectativas e comparar com o que de fato aconteceu nem vale a pena. Tira um pouco a esperança de que é possível melhorar. O que mais lamento é não ter acontecido a limpeza da Baía da Guanabara e o mega investimento em saneamento.

2) Com sua carreira dedicada ao mercado internacional, forçando-o a conviver mais tempo no exterior, qual a imagem que seus pares e colegas estrangeiros têm do Brasil atualmente? Quão difícil é convencê-los a conhecer nosso país como turistas?

Meirelles: No último ano, para lançar Dois Papas, viajei sem parar e dei entrevistas e fui a eventos semanalmente. O primeiro assunto dos jornalistas sempre era em relação ao presidente do Brasil. Todos lamentam e falam como se eu tivesse perdido a mãe.

O fato é que senti que o Brasil perdeu o seu charme e sua imagem de alegria. Virou o país das arminhas e da destruição de um dos maiores patrimônios do planeta. Parabéns ao Ministro Ricardo Salles que perversamente está conseguindo destruir a imagem do Brasil.

“O fato é que senti que o Brasil perdeu o seu charme e sua imagem de alegria”

3) Como o Brasil poderia estimular o turismo internacional a partir das produções audiovisuais que o escolhessem como locação de filmes e séries?

Meirelles: Honestamente, e sem querer parecer repetitivo, se continuarmos a destruir nossas florestas, não há propaganda ou filme que mudem a percepção do país lá fora. Nossa natureza é nosso maior diferencial, para as pessoas quererem vir, temos que cuidar dela para que se queira visitá-la. Primeiro tomamos conta, depois filmamos o que foi feito.

 

“… se continuarmos a destruir nossas florestas, não há propaganda ou filme que mudem a percepção do país lá fora”

4) No seu último filme “Dois Papas”, que rendeu indicações ao Oscar e ao Bafta, o diálogo e a tolerância são os temas centrais. Você acredita que uma pandemia como a que estamos vivendo colabora para o exercício diário dessas habilidades, fundamentais aos seres humanos de qualquer parte do mundo? E como você vem enfrentando essa fase?

Meirelles: A pandemia tem sido ótimo momento para a reflexão, para quem pode parar e se dar a este luxo, mas infelizmente não vejo onde possa ter atuado para minimizar as crenças ideológicas fudamentalistas, tanto as da direita quanto as da esquerda. Estou fazendo parte deste movimento chamado #Juntos, que é justamente para distensionar o clima polarizado. Os extremos gritam enlouquecidos enquanto a maioria dos brasileiros, sem voz, assistem o tiroteio. Este movimento é um pouco para juntar ou dar voz para quem não gosta de arminhas e da tensão, quem apenas quer um país onde ideias possam ser trocadas e onde a discordância não seja motivo para cancelar quem tem opinião divergente.

“…onde ideias possam ser trocadas e onde a discordância não seja motivo para cancelar quem tem opinião divergente”

Pessoalmente tem sido um bom momento para mim. Muitas fichas estão caindo. Estou tentando agora dar um restart mental para incorporar o que compreendi neste período.