4 perguntas – Mariana Aldrigui

02-10-2019

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No último dia 27 de setembro foi comemorado o Dia Mundial do Turismo, e diferentes organismos divulgaram dados que atestam a relevância do setor na economia mundial.
No Brasil, o setor de turismo é bastante representativo, social e economicamente, mas seus resultados estão bastante aquém do que o país comporta, e some-se a isso a crise na imagem do país no exterior.
Convidamos a especialista em Turismo, pesquisadora da Universidade de São Paulo e presidente do Conselho de Turismo da FecomercioSP, Mariana Aldrigui, para compartilhar sua percepção e sugestões sobre a situação atual.

1- Como a comunicação pode ajudar na construção da imagem do Turismo brasileiro?

Mariana Aldrigui: Atualmente, comunicação é simplesmente a base da competitividade em turismo. Seja produto, serviço ou destino, a única forma de atingir o público desejado é por meio da comunicação, e quando melhor for a estratégia, melhores os resultados. Muita gente ainda acredita que o sucesso está na propaganda direcionada, em campanhas isoladas, mas já está comprovado que isso não se sustenta em tempos de redes sociais na palma da mão. A relevância de um destino (produto ou serviço) será percebida pelo usuário especialmente se as mensagens estiverem vinculadas aos principais temas da atualidade. Londres, NY, Paris não saem da mídia e seguem sendo os destinos mais visitados do mundo, e praticamente não se vê propaganda de seu turismo, mas notícias sobre as milhares de atividades diferentes que acontecem nestes locais. O Brasil, por sua vez, ocupa o noticiário, especialmente online, com notícias negativas (violência, insegurança, racismo, misoginia, feminicídos, incêndios, enfim…) e a propaganda institucional parece falar de um lugar que não é aqui. O alcance das ações de promoção do país é muito restrito e isso se revela nos números pífios de desembarques internacionais.

O ideal, para começar, é que a comunicação fosse definida como uma estratégia de longo prazo, multicanais, com suporte na imprensa especializada em economia, política e cultura. Do contrário, é rasgar dinheiro.

2- Você acredita que a situação do Turismo no Brasil deveria ser tratada como uma gestão de crise?

Mariana Aldrigui: A crise brasileira é uma crise de valores éticos e morais, então não adianta compartimentar. Quanto mais espaço se dá ao extremismo e à intolerância, mesmo que por meias palavras ou subtextos dos governantes, menos atraente é um lugar. O turista de negócios não tem muita liberdade de escolha, ele vai onde precisa ir, e se não se sentir confortável e seguro, se fecha dentro de hotel, táxis e restaurantes. O turista de lazer, por sua vez, pondera suas escolhas em função do valor que pode gastar e da experiência que deseja viver e compartilhar. Correr riscos deliberadamente é incomum. Portanto, de nada adianta maquiar as imagens, editar os textos para parecer que está tudo bem quando há mais informações dizendo que as coisas seguem tensas para segmentos como LGBT, mulheres viajando sozinhas, 50+ e assim sucessivamente.

O que me parece fundamental, hoje, é que empresas fortaleçam sua identidade junto ao público, reforçando a mensagem de respeito à diversidade, combate ao preconceito e valorização do que sempre foi característica do brasileiro – alegria e hospitalidade, amabilidade.

3- A EMBRATUR recentemente lançou uma nova marca para promoção internacional do turismo no Brasil, o que gerou inúmeras análises e polêmicas, inclusive internacionalmente. Qual sua opinião sobre tudo isso?

Mariana Aldrigui: Uma piada de mau gosto. A atual gestão da Embratur ainda não disse a que veio, não apresentou um projeto de gestão, metas e programas indicando como tais metas serão atingidas. É um desrespeito aos servidores de carreira sérios que integram a autarquia e uma aceleração rumo ao nada. Enquanto isso, os países do Caribe se fortalecem mesmo tendo sido devastados por desastres naturais, e recebem mais turistas que poderiam estar vindo para cá.

4- Ainda existe um distanciamento de objetivos entre os setores público e privado do Turismo brasileiro? Como em outras economias, o que o empresariado de turismo poderia crescer sem depender tanto das políticas públicas?

Mariana Aldrigui: O empresário do turismo brasileiro é um apaixonado pela causa. Seria maravilhoso que seu tempo fosse dedicado apenas à gestão de seu negócio e abertura de novos mercados, mas muitos acabam tendo que dedicar tempo no trato com representantes políticos que apresentam ideias alucinadas, cujo resultado é o retrocesso (veja a questão da cobrança de bagagem) ou o entrave puro e simples da atividade (como a elevação das alíquotas de impostos sobre serviços). Acredito que comunicamos mal a relevância do setor, para a sociedade, que poderia se juntar no momento de fazer pressão. Mas é um desafio, pois muitas vezes até entre os supostos “líderes” há discordância, e falas que buscam limitar a livre concorrência e o livre mercado. Eu acredito que a disseminação de informações corretas em ambiente digital tem um grande poder de persuasão, e é este o caminho que deveríamos seguir.